Multidão lotando o JFK Stadium, na Filadélfia, durante o Live Aid em 13 de julho de 1985

Imagem: Squelle, Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0

O Rock Só Ganhou Seu Dia Seis Anos Depois de Mim

13 de julho de 1985. Wembley lotado, do outro lado do Atlântico o JFK Stadium na Filadélfia igualmente cheio, e no meio da maratona de shows um baterista inglês pega o microfone e decreta, sem consultar ninguém, que aquele dia devia ficar conhecido como o Dia Mundial do Rock. Ninguém votou. Ninguém assinou nada. Foi só Phil Collins falando o que lhe deu vontade, ao vivo, para uma audiência estimada em 1,5 bilhão de pessoas em mais de 100 países. E, de alguma forma, colou.

Um Show, Dois Continentes, Um Baterista de Jato

O evento em si já merecia data própria por outros motivos. O Live Aid foi organizado por Bob Geldof para arrecadar fundos contra a fome na Etiópia, e reuniu praticamente todo mundo que importava no rock daquele momento: Queen com a apresentação de Freddie Mercury que até hoje entra em qualquer lista de “melhor show ao vivo da história”, além de U2, David Bowie, Elton John, Paul McCartney, The Who, Led Zeppelin reunido para a ocasião, Mick Jagger, Eric Clapton, Dire Straits, Black Sabbath. Collins, pra variar, não se contentou em tocar só um dos palcos: se apresentou em Londres e depois embarcou num Concorde para repetir a dose horas depois na Filadélfia. Bateria em dois continentes no mesmo dia. Uns têm ambição, outros têm passaporte.

A Sugestão Que Nunca Virou Lei em Lugar Nenhum

Aqui mora a piada que ninguém conta: a tal sugestão de Collins nunca foi oficializada por nenhum governo, nenhuma entidade internacional, nenhuma ONU do rock. Ficou só isso — um comentário solto, no calor do momento, que qualquer um esqueceria na segunda-feira seguinte.

Só que não esqueceram. Anos depois, já em meados dos anos 90, duas rádios paulistas especializadas em rock — a 89 FM e a 97 FM — pegaram a deixa e começaram a promover o 13 de julho em suas programações. Pegou tão bem que em poucos anos virou tradição nacional, com shows, playlists especiais e homenagens todo ano. O detalhe engraçado é que, segundo o próprio que foi investigar o assunto, essa comemoração com nome de “mundial” é, na prática, item de exportação zero: fora do Brasil, o 13 de julho não consta em calendário nenhum como data do rock. O mundo inteiro que celebra o Dia Mundial do Rock cabe, coincidentemente, dentro das fronteiras brasileiras.

Tem gente que nem concorda que a data devia ser essa. Especialistas consultados pela imprensa já sugeriram outras candidatas mais “legítimas” historicamente — a favorita costuma ser 5 de julho de 1954, dia em que Elvis Presley gravou “That’s All Right” com Scotty Moore e Bill Black em Memphis, sessão que boa parte da crítica aponta como o momento em que o rock nasceu de fato. Não importou. A rádio paulista já tinha vencido a parada, e tradição de duas décadas não perde pra nota de rodapé acadêmica.

Onde Eu Entro Nessa História

E é exatamente nessa data emprestada de um comentário improvisado de um baterista inglês, adotada por duas rádios de São Paulo, que este blog buscou o nome. Treze do Sete não é força de expressão nem trocadilho gratuito: é 13/7, o dia exato em que nasci.

Façamos a conta com o rigor que a ocasião não pede, mas eu insisto em fazer assim mesmo: nasci em 13 de julho de 1979. Quando Phil Collins abriu a boca em Wembley, em 1985, eu já tinha seis anos de estrada rodada. O rock precisou de mim vivo há seis anos inteiros para finalmente decidir que merecia um dia só dele. De nada.

Hoje, 13 de julho de 2026, fecho 47 anos. Quarenta e sete anos de idade para uma efeméride que, quatro décadas depois, ainda não tem reconhecimento oficial em canto nenhum do planeta — nem sequer no país que a inventou. Pelo menos um de nós dois tem certidão de nascimento.

Bolo com 47 velas, aliás, é basicamente um solo de bateria em chamas: barulhento, gera fumaça, e no final ninguém sabe ao certo se sobrou alguma coisa inteira. Keith Moon aprovaria.

Então neste 13 de julho, enquanto o “mundo” — leia-se: o Brasil, com bastante orgulho — bota os clássicos de sempre pra tocar, aqui a comemoração é em dobro. Um brinde ao dia em que o rock resolveu ter identidade própria, tomando emprestado o entusiasmo de duas rádios paulistas. E outro, bem maior, ao dia em que eu decidi aparecer primeiro. Parabéns pra nós dois. Eu ainda levo vantagem no quesito idade, e pretendo manter assim.